Naquele tempo, antes do Acordo de Paz para Angola, assinado em 1991, os guerrilheiros de Jonas Savimbi recorriam à canção como instrumento de transmissão da mensagem política, de mobilização, de animação colectiva, de preservação cultural e também de consolação das tropas.
Com esse espírito, surgiram vários agrupamentos musicais, entre os quais destaco o Tchilembo Tchuti, na Região Militar 45; os Negros Oprimidos, liderados por Joaquim Chimuco “Poeira”, um dos maiores artistas e compositores daquele tempo; o Resistência Negra, do grande viola-solo e compositor Katchiungo; e o Som da Liberdade, de Kandingolo, Costa Kakepa e Grito. Também havia o Orfeão da Jamba, dirigido pelo maestro Jerónimo Bonga, e ainda o grupo de danças tradicionais do soba Xavier Kusekala, conhecido pela sua icónica canção: “ombolototo ka indigila omanyã vu hamba, ame ndi itakilã…”.
Nesse mesmo contexto nasceram, em todas as Regiões Militares e nas Unidades Semi-Regulares e Regulares, os Destacamentos de Agitação Política (DAP), inspirados no DAP Três de Agosto.
Para tentar saber um pouco mais sobre o DAP Três de Agosto, do qual eu era fã, telefonei a uma das suas primeiras integrantes, Violante Wandi. Graças a ela, pude conhecer pormenores que até então me eram totalmente desconhecidos. Por exemplo, contou-me que o grupo que viria a chamar-se Três de Agosto começou como um pequeno núcleo de agitação composto por cinco elementos, entre os quais Alfeu Sandimba, Chica, São e Katchambalele. Do quinto integrante, infelizmente, já não se recordava do nome.
Porém, lembrou-se de que, em 1979, na base de Kandendere e, posteriormente, na de Kakuxi, ambas situadas ao longo do rio Cubango, na fronteira com a Namíbia, o pequeno núcleo foi reforçado com novos membros, entre os quais ela própria. Como, nessa altura, já eram cerca de vinte integrantes, o grupo foi baptizado pelo Dr. Savimbi como DAP Três de Agosto, tendo como chefe o lendário maestro Alfeu Sandimba. Mais tarde, passou a ser dirigido pelo maestro Matias, coadjuvado por Katchambalele. Também faziam parte, entre outras, as manas Teté, Ricardina, Valentina, Emília Wandi, Octávia Jamba, Deli Chiliangombe, Joana Mário e o mano Tulinwa. Eles cantavam e encantavam. Mas não se limitavam aos cânticos; desempenhavam outras tarefas no quotidiano: visitavam doentes e feridos de guerra internados, ajudavam a lavar as suas roupas e prestavam vários tipos de apoio.
A própria mana Violante, depois de se formar como técnica de saúde em 1980, passou a auxiliar o enfermeiro da coluna presidencial, na época o alferes Faustino Rodrigues, mais conhecido por Tino, actualmente brigadeiro reformado.
Mesmo nas grandes actividades políticas, sobretudo em datas comemorativas como o 13 de Março, dia da fundação da UNITA, ou ainda o 3 de Agosto, data natalícia do Dr. Savimbi, o DAP aparecia em grande, com uma canção nova a retratar o momento político. Já na hora da partida de futebol, organizada pela Associação Desportiva da Resistência Angolana (ADRNA), chefiada pelo saudoso jornalista Tito Marcolino Nhany, sob tutela do general Isidro Wambu Chindondo; as manas do DAP faziam a claque da equipa Três de Agosto. Era bonito. Apoiavam a equipa do primeiro ao último minuto da partida.
Quando houvesse golo da sua equipa, invadiam o campo para festejar com os jogadores. Naquele tempo, a equipa Três de Agosto dificilmente perdia. Tinha um ataque demolidor: Karriça, Zé Manuel e França. Eram habilidosos e perigosos no um contra um. Tinham “sprint”. Pareciam não se cansar. Aliás, com o apoio daquela claque, ninguém se cansava mesmo.
Verdade seja dita: o DAP Três de Agosto foi o melhor. Nenhum outro lhe chegava aos pés. Do seu vasto repertório destacava-se uma canção que narrava o abate, pelas FALA, de um Antonov-27 da Força Aérea do então Governo da República Popular de Angola. Cantavam assim: “Antonov 26, kosãi ya mbala vipembe, ya kupukila kolikwa avoyo…”.
Havia outra, geralmente entoada nas recepções ao Presidente fundador: “Weya kesongo ketu Savimbi, tu kuyolela lesandju lyalwa…”.
Também cantavam: “Kesongo ketu Jonas Savimbi, ongwe wa iloyela viso; ene ukasi loku iyuva, ocipa caco kacikapenge we, nda wa cipengisi ukayuviwi vo lowiñi wongola.”
Uma outra dizia: “Aswalali vetu vo lo FALA, eteke lyo kupitilã valupale, vaka panguisa okutala, vaka ñwala, ñwala volokololo lo kututula…”.
Havia ainda a canção “Okamunu kamosi…”, entoada sobretudo quando se pretendia lembrar que a Revolução exigia disciplina e não admitia desvios à linha ideológica ou acções contrárias às normas de conduta.
Eram canções vibrantes e cheias de alma, adequadas ao momento que se vivia naquele período de intenso fervor revolucionário.
Com a chegada da paz, em 1991, o DAP Três de Agosto passou a acompanhar o Dr. Savimbi nos comícios realizados pelas várias províncias do país, animando as populações com músicas que anunciavam a boa nova: a democracia havia finalmente chegado e o monopartidarismo não voltaria a Angola.
Infelizmente, com o reacender da guerra no período pós-eleitoral, o DAP Três de Agosto deixou de existir como tal, embora a sua memória tenha permanecido viva. Essa memória manifesta-se hoje no surgimento de novos DAP nos comités provinciais da UNITA, como uma espécie de reencarnação daqueles destacamentos históricos, mas agora com uma mensagem adaptada aos novos tempos da luta política e democrática.
Recordar sem ódio é, talvez, a forma mais nobre de nos reconciliarmos com a nossa própria história.
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