Luanda - No vasto universo do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), há militantes de várias espécies. Não é uma crítica; é biodiversidade partidária. Tal como na savana, coexistem predadores estratégicos e aves de canto patriótico.
Fonte: Club-k.net
Primeiro, temos o militante oportunista. Esse é um visionário. Não vê apenas a bandeira; vê oportunidades cromáticas. O vermelho não é sangue da luta; é cor de tapete institucional. O preto não simboliza África; simboliza a elegância do fato que já encomendou para a futura tomada de posse. Ele não canta o hino; ensaia-o. Não ergue o punho; calcula o ângulo. Está sempre disponível para «servir o partido», desde que o serviço venha com viatura protocolar, cartão de combustível e uma assessoria com ar-condicionado funcional.
Ele é disciplinado, sim senhor. Muda de opinião com a mesma rapidez com que muda o líder do comité. Se ontem defendia A com convicção revolucionária, hoje defende B com fervor renovado. Coerência? Não, camarada; adaptabilidade estratégica. O seu maior talento é antecipar o vento e posicionar-se exactamente onde a poeira levanta menos, mas o cargo assenta melhor.
Depois, há o outro. O militante que ama. Ama mesmo. Ama a bandeira como quem ama a própria mãe. Sabe o hino de cor, inclusive as estrofes que quase ninguém canta. Guarda no peito os ideais como relíquias sagradas. Não pergunta «o que ganho?»; pergunta «onde me posiciono?». E quando o partido decide, ele cerra fileiras. Não importa quem seja o líder colocado diante de si; pode ser um estratega brilhante ou um orador de frases recicladas; ele aplaude com a mesma fé.
É o militante que já participou em todas as marchas, colou cartazes sob o sol impiedoso e nunca recebeu mais do que uma t-shirt de tamanho errado. Enquanto o oportunista sobe, ele permanece. Enquanto o outro negocia, ele acredita. Vive de promessas, alimenta-se de esperança e dorme embalado pelo discurso histórico da libertação.
Há algo de trágico na sua pureza. Ele é o último romântico da política. Acredita que o partido é uma extensão da pátria e que a pátria é uma extensão da sua própria dignidade. Quando os escândalos surgem, ele sofre em silêncio. Quando as críticas aumentam, ele defende com argumentos emprestados da memória da luta. Ele não milita por benefícios; milita por pertença.
O oportunista olha para o partido como plataforma. O idealista olha para o partido como destino. Um vê a estrutura; o outro vê a história. Um calcula o retorno político e económico; o outro calcula a lealdade em decibéis de aplauso.
E, no meio disso tudo, o partido segue. Alimentado por ambos. Pelo que ama demais e pelo que ama o suficiente para esperar nomeação. Talvez o verdadeiro génio político esteja precisamente aí: numa engrenagem onde o pragmático precisa do romântico e o romântico legitima o pragmático.
No fim, quando a música toca e a bandeira sobe, ambos cantam. Um canta porque acredita. O outro canta porque convém. E o hino, coitado, não distingue intenções; apenas ecoa.
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