Membro do Comité Central do MPLA denuncia afastamento de militantes históricos, critica a falta de abertura ao diálogo e lamenta a ausência de solidariedade para com a sua família durante os últimos seis anos.
Irene Alexandra da Silva Neto, membro do Comité Central do MPLA, lançou duras críticas à forma como o partido tem tratado alguns dos seus militantes históricos, alertando para o distanciamento entre dirigentes e bases, a falta de diálogo interno e o enfraquecimento dos valores de solidariedade que marcaram a luta de libertação nacional.
As posições constam de uma comunicação datada de 3 de Novembro de 2026, dirigida a António Ferreira Júnior, director da Secretaria-Geral do Comité Central do MPLA, que o nosso portal teve acesso, na qual Irene Neto justifica a sua ausência da reunião marcada para 5 de Novembro, alegando motivos pessoais e familiares.
No documento, a dirigente manifesta preocupação com aquilo que considera ser uma crescente cultura de silêncio e conformismo dentro do partido, onde muitos militantes evitam expressar opiniões diferentes por receio de desagradar às estruturas superiores.
Segundo Irene Neto, a vida partidária tornou-se, em muitos casos, excessivamente mecanizada, com reuniões e visitas protocolares que pouco contribuem para conhecer as verdadeiras preocupações dos militantes e das populações.
«A dedicação a uma causa não deve confundir-se com o fanatismo, nem a lealdade com a renúncia à consciência individual», escreveu.
IRENE NETO LAMENTA ABANDONO E FALTA DE SOLIDARIEDADE DURANTE OS MOMENTOS DIFÍCEIS DA FAMÍLIA
Um dos pontos mais marcantes da comunicação está relacionado com a situação familiar da dirigente, que lamenta a ausência de solidariedade de antigos companheiros de luta durante os últimos anos.
Irene Neto recorda que a sua família atravessa circunstâncias particularmente difíceis, relacionadas com a prolongada ausência do marido, preocupações de saúde e processos judiciais que afectam profundamente a estabilidade familiar há mais de seis anos.
A dirigente admite que lhe foi difícil compreender o afastamento de pessoas com quem partilhou anos de vida e compromisso político.
«Nunca esperei que todos concordassem comigo. A solidariedade não exige concordância política. Mas esperava que uma história comum não fosse esquecida precisamente quando uma família atravessa momentos difíceis», sublinhou.
MPLA PRECISA DE OUVIR OS MILITANTES E TER CORAGEM DE MUDAR
Na comunicação, Irene Neto defende que o MPLA deve recuperar a sua vocação histórica de libertação, respeitar as diferenças e promover uma verdadeira renovação interna.
A dirigente alerta ainda que a responsabilidade de governar não pode transformar-se num sentimento de superioridade perante os cidadãos e os próprios militantes.
Para Irene Neto, a renovação dos órgãos partidários não deve significar o esquecimento daqueles que contribuíram para a independência e a construção de Angola.
«A nossa história merece respeito, mas não pode servir de desculpa para os nossos erros. Honrá-la é também ter a coragem de mudar de rumo», afirmou.
A comunicação surge num momento em que o MPLA se prepara para renovar os seus órgãos e definir os próximos passos políticos, levantando questões sobre a democracia interna, a valorização dos militantes históricos e a necessidade de aproximação entre dirigentes e bases.
Irene Neto termina apelando à responsabilidade histórica do partido, defendendo que os militantes e os cidadãos angolanos têm o direito de exigir mais daqueles que assumem funções de liderança.
O documento solicita ainda que a comunicação seja anexada aos documentos da reunião do Comité Central e disponibilizada aos seus membros.
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