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A Baixeza no Alto Lugar- Sousa Jamba

Vivo na língua inglesa há cinquenta anos. Entrei nela aos dez, quando se entra nas coisas sem suspeitar ainda que elas nos irão mobiliar por dentro. Na escola, entendi-me bem com ela. Mais tarde, o meu primeiro emprego consistiu em ensiná-la, na Escócia. Falo, por isso, não como visitante da língua, mas como alguém que lhe conhece o andamento, a limpeza, a contenção e o decoro.

 

 

É isso que me faz estremecer, quase fisicamente, diante do que hoje sai da Casa Branca.  Não falo apenas de política. A política vive da diferença, e ninguém sensato desejaria uma democracia sem desacordo. O que me inquieta está noutro lugar. Está no abaixamento do registo, no tom que desce, na frase que, em vez de esclarecer, conspurca, na grosseria que deixa de ser acidente para passar a ser método. Donald Trump já falou obscenamente de Mohammed bin Salman, deixou cair observações impróprias sobre a vida conjugal de Emmanuel Macron, tratou países africanos e o Haiti com palavras que parecem vir de uma cave. Não foram escorregadelas. Foram janelas escancaradas. Em cada uma delas viu-se menos o mundo e mais o homem.

Se um dos meus filhos falasse assim, eu corrigi-lo-ia de imediato. Não apenas por boas maneiras, embora elas tenham a sua utilidade. Corrigi-lo-ia por causa do que ali se expõe por inteiro. Dir-lhe-ia: não digas isso. As palavras denunciam a oficina de onde saímos. Trazem o toque das mãos que nos moldaram, a disciplina que nos foi dada, ou a sua falta, os exemplos que nos cercaram à mesa, no quintal, no carro, na sala. Há frases que erguem cortinas. Mostram tudo.

 

Mas, quando esse registo vem da boca do Presidente dos Estados Unidos, a coisa muda de escala. Já não se trata apenas de uma insuficiência privada. Torna-se magistério público. Há sempre gente ressentida, insegura, mal lida, pouco formada, que recebe a grosseria do poderoso como licença. Escuta aquilo e endireita-se. Experimenta o tom. Repete o vocabulário. Confunde baixeza com franqueza, brutalidade com vigor, insulto com valentia. Julga que o homem que berra venceu a discussão.

 

É assim que o espaço público se degrada. Não num só dia. Não por decreto. Não por conspiração. Degrada-se por cópia, por repetição, por infiltração.

As palavras contam. As dos homens poderosos contam mais. Vão longe. Batem em superfícies. Ficam alojadas em ouvidos. Formam reflexos antes mesmo de formarem ideias. Quando a linguagem do topo desce, o dano não é apenas estético. O cargo perde relevo. A autoridade perde compostura. O reles recebe um brilho emprestado. E aquilo que deveria ser raro, a fala de quem ocupa o ponto mais alto, converte-se em número de feira. O espectáculo toma o lugar da presença. E o espectáculo, pouco a pouco, embota quem o vê.

 

Há uma palavra inglesa que me vem sempre à cabeça nestas horas: stature. Não tem tradução exacta. Fica algures entre estatura moral, gravidade e densidade de presença. É a qualidade que faz com que certas vozes, ao entrarem numa sala, reorganizem o silêncio. Um cargo daqueles exige isso. E a linguagem pode desfazê-lo com uma rapidez que nem o escândalo, nem o inquérito, nem a derrota eleitoral conseguem igualar.

Stature não aparece por decreto. Constrói-se devagar, palavra a palavra, gesto a gesto. E perde-se da mesma maneira. É isso que, em Trump, mais me espanta. Não o poder. O poder tem a sua mecânica e, com regularidade desoladora, eleva homens medíocres. O que me espanta é a desenvoltura com que ele desperdiça aquilo que o poder lhe poderia dar: a possibilidade de falar de um lugar que obrigasse o mundo a escutar com respeito. Em vez disso, escolhe o balneário, a picardia fácil, o epíteto que fere sem alumiar, a frase que diverte os seus e apequena o cargo.

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